Por Vinícius Gallier
Esse post tem o intuito de ser didático e, de certa forma, introdutório, Irei abordar nele questões básicas sobre como é feito uma pesquisa histórica. Nesse sentido, sempre de forma breve e resumida tentando sempre colocar as devidas fontes em cada parte. Por esses motivos, creio que uma estrutura organizada em tópicos seja de melhor entendimento para todos.
O propósito desse post não é ensinar, de forma detalhada, a como fazer uma pesquisa histórica mas sim explicar, de forma simplificada, algumas coisas que são imprescindíveis para a realização desse tipo de pesquisas para o público, sobretudo, mais leigo nessa questão.
> Como surge uma pesquisa
Uma pesquisa surge com um problema cientifico que pode ser, normalmente, descoberto quando:
1) O historiador descobre uma lacuna a ser preenchida, ou seja, algum "espaço em branco" na história que ainda não se sabe muito a respeito.
2) quando há uma discordância do historiador para com um conhecimento e/ou teoria que eram admitidos anteriormente, ou seja, quando um historiador discorda de algo que era admitido anteriormente pela academia, seja por vários motivos.
É importante salientar que uma mera discordância não implica diretamente em um resultado, tampouco vai fazer com que a Historiografia mude somente "porque sim" ou "porque é minha opinião". Trocando em miúdos: não é porque a pessoa X acha que a Ditadura Brasileira não existiu que ela está certa por si só, tampouco pode reivindicar isso como algo correto sem o devido trabalho historiográfico ter sido feito.
Normalmente esses são os casos que os problemas são descobertos. Uma vez que isso ocorre, deverá, normalmente, ser feito um projeto de pesquisa para que, assim, tenha-se inicio a pesquisa de fato.
É importante frisar o seguinte: todo tema deverá ser delimitado dentro do: 1) Espaço, ou seja, o local que a pesquisa irá tratar. 2) Tempo, ou seja, qual o espaço de tempo que será tratado na pesquisa. 3) O universo de análise, ou seja, definindo o que entrará na sua análise e o que não entrará. Um exemplo (não necessariamente é uma lacuna, este exemplo é puramente especulativo para fins de entendimento): A relação de poder entre classes (3) no Brasil (1) no século XX (2).
Referências Bibliográficas:
-CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Como elaborar um projeto de pesquisa.
> Um projeto de pesquisa
Não será feito aqui uma explicação detalhada do projeto de pesquisa, falando de cada aspecto mas sim uma explicação mais geral sobre.
O projeto de pesquisa nada mais é que, de forma simplificada, um "roteiro de planejamento" do tema que sobre o que será a pesquisa, seus objetivos e porque essa pesquisa que virá a ser feita mais a frente é relevante para a sociedade atual. Não somente isso, devendo apresentar também outros fatores que não serão abordados aqui.
É importante entender que o caminho da pesquisa é sinuoso, ou seja, não segue uma linha reta de inicio-fim sem problemas. Muitas vezes, ao se deparar com fontes, por exemplo, sua hipótese pode se mostrar insustentável e, nisso, ter que elaborar uma nova. Por esses motivo o projeto de pesquisa têm, naturalmente, de ser flexível, visto que pode ocorrer de novas fontes serem descobertas, dificuldades serem manipuladas (como somente existirem em formato físico) dados ou algum imprevisto de outra natureza. Um exemplo de fontes que, somente recentemente (2017), foram digitalizadas, ou seja, que puderam ser amplamente difundidas são os 1.160 dossiês que compõem o conjunto documental da Assessoria de Segurança e Informação da Fundação Nacional do Índio (ASI/FUNAI) disponibilizadas no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro. Esses dossiês têm importância fundamental na elaboração da História da opressão que ocorreu do governo da ditadura sobre os indígenas brasileiros no periodo de 1967 a 1988.
O projeto de pesquisa tem várias partes que o compõem, porém isso não será abordado aqui, possivelmente mais a frente haverá um novo post elaborando melhor como fazer esse projeto.
Referências Bibliográficas:
-CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Como elaborar um projeto de pesquisa.
-CARDIA, Mirian Lopes. Arquivo Nacional disponibiliza para consulta documentação sobre povo indígena Krenak. Disponível em: http://www.arquivonacional.gov.br/br/ultimas-noticias/809-arquivo-nacional-disponibiliza-para-consulta-documentacao-sobre-povo-indigena-krenak. Acesso em: 20/02/2020
Consultar também:
-BARROS, José D'Assunção. O projeto de pesquisa em História. a escolha do tema ao quadro teórico. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012
> A importância, autenticidade e crítica as fontes
O uso das fontes - seja de qualquer tipo - é extremamente necessária para uma pesquisa pois, sem elas, não seria possível dar sustentação aos argumentos que iriam ser apresentados no trabalho final. Entretanto, é necessário saber lidar com as fontes - verificar sua autenticidade e, até mesmo, critica-las.
É necessário, se possível, verificar quanto a autenticidade da fonte. Verificar se ela foi, ou não, alterada.
Vamos começar devagar, voltando com a ideia da hipótese: uma hipótese é uma pergunta feita por quem está elaborando a pesquisa e a partir dessa pergunta que, segundo March Bloch em "A Apologia da História ou Oficio do Historiador", o historiador faria a "fonte falar". Em outras palavras: a fonte não informa nada por sí só, mas precisa que uma pergunta seja feita a ela para que ela seja útil pois a resposta irá depender da pergunta. Colocando um exemplo: a pergunta elaborada é sobre a existência ou não de uma lei de cotas para filhos de agricultores já tenha existido no Brasil no século XX. Com essa pergunta em mãos, ao verificar a lei de LEI Nº 5.465, DE 3 DE JULHO DE 1968 (chamada de "lei do boi") temos como pressuposto que sim, essa lei existiu. Entretanto, se a pergunta feita for "a lei do boi teve um retorno positivo para as famílias dos agricultores dentro de um período X" a mera existência dessa lei não nos responde a essa pergunta.
Essas perguntas são, sempre, feitas pelo historiador no presente mas a fonte fala sobre o passado, por isso que Bloch, na Apologia da Historia, diz que a História não é a "ciência do passado" como era defendida antigamente, mas sim que era na relação entre o presente e o passado que a "partida é jogada".
É necessário também a crítica as fontes em vários casos porque, querendo ou não, essas fontes foram feitas por uma pessoa. Por exemplo: Bloch, conta o caso da carta de um general de exército que está descrevendo a vitória que tivera em uma batalha, ele contará tudo o que viu, talvez de maneira engrandecedora, mas será que contará sobre os relato ricos que recebera de seus tenentes? Visto que, embora o general normalmente se encontre num lugar privilegiado para observação, dificilmente teria como saber tudo que acontece em várias frentes. Nesse sentido,. as fontes devem, sim, ser criticadas mas sempre dentro do limite do bom senso.
Referências Bibliográficas:
- BLOCH, Marc. Apologia da história: ou o ofício de historiador. Zahar, 2002.
> Sincrônico e Diacrônico e o perigo do Anacronismo
O maior pecado do historiador é o Anacronismo, é algo que não deve ser feito em uma análise e que, dependendo do caso, pode anular totalmente toda uma análise por causa desse erro, que pode ser ele proposital ou não.
A explicação do que é anacronismo foi feita no nosso Instagram, nos posts de conceitos que será um quadro de posts exclusivo dessa rede social.
Uma análise primorosa deve ser sincrônica e diacrônica. Esses conceitos também vão ser explicados mais a frente no instagram do blog e quando isso acontecer serão postados aqui.
O conceito de sincronia e diacronia também serão explicados lá, porém, acho válido deixar um link de um video que explica maravilhosamente essa questão: Anacronismo, sincronia, diacronia e porque a história não se repete - Leitura ObrigaHISTÓRIA
> Bibliografia
As referências bibliográficas são, essencialmente, onde o autor está se apoiando para seu argumento - e aqui incluem-se fontes primárias (de pessoas do contexto da época, relatos, objetos...) e secundárias (outras pesquisas que ja passaram por uma analise).
Sabe aquele trabalho chato que se tem em todo trabalho de organizar suas bibliografias? Então, esse trabalho é bastante importante visto que é dali que outros historiadores, por exemplo, podem revisar seu trabalho para ver se você está usando algum termo mal-empregado. Em suma: é através das referências bibliográficas e da analise das fontes que você se apoiou que outros historiadores podem se debruçar sobre e analisar suas premissas e conclusões de acordo com as fontes que você obteve.
A importância das referências, em contrário ao que muita gente acredita, também é bastante valiosa em qualquer área das ciências - seja elas sociais as ditas "ciências duras".
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